segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lapidações Vivas

Saí de casa bem cedinho na sexta passada rumo ao Ceasa para comprar 3 vasos de vidro e algumas flores. Queria me aventurar em arranjos florais. Voltei pra casa com 11 vasos e a caçamba cheia de flores. Quando juntei todas ainda no carretinho dentro do Ceasa tomei um susto: "só vou conseguir fazer arranjos para os Flingstones!" Tudo parecia tão primitivo.
Realmente o tempo é algo a ser repensado quando a gente pega um vaso, flores e resolve tentar fazer um arranjo. Pressa não é bem vinda, precisão é fundamental e no meu caso a solidão foi uma ótima parceira!


Tenho ainda pouca coisa para falar de arranjos em vasos, é muito novo para mim, mas já percebi que é algo que tira a gente do pensamento rotineiro e faz a gente entrar num lugar muito mais quieto dentro da gente. Em alguns momentos a gente perde completamente o controle e acaba não sabendo onde vai parar o arranjo e ele vai aparecendo a cada flor, folha, a cada movimento.


Uma coisa bem prática eu percebi nos primeiros minutos: tesoura afiada, uma maior, outra de ponta bem fininha, alicate para os caules mais duros, uma pinça grande para trabalhar coisas no fundo do vaso, vários baldes d'água para as plantas, araminhos, elásticos verdes, grampeador de papel...enfim, é necessário uma oficina bem equipada!




Outra coisa importante para não danificar muito as plantas e o próprio arranjo: depois de colocar alguma flor, principalmente as que tem muitos galhos ou folhas para prender nas outras, fica díficil de tirar sem desarrumar tudo. Por isso a calma, a precisão e a confiança.





Gostei demais desse mergulho de 3 dias em algo tão delicado e cheio de detalhes. Certamente vou levar isso para meu dia a dia e também para meus jardins maiores. Não importa o tamanho do jardim, nada mais é do que camadas e camadas lapidadas em escalas e proporções.




Afinar o olhar, ouvir o coração e respeitar o tempo.




segunda-feira, 21 de março de 2011

My Shoes - Oscar Freire




Após meses de gestação, testes de materiais, reuniões com os arquitetos, engenheiros, iluminadores e muitas idas aos viveiros escolher uma por uma das plantas, está pronto e flutuante esse jardim da loja My Shoes. Muito trabalho, algumas noites acordadas no meio dos sonhos e muito, muito prazer quando a luz foi acesa!

O projeto todo surgiu desses cubos, que é uma forma muito forte na identidade visual criada pelos arquitetos Carlos Mira e Angela Benetton para a loja.
A loja na esquina da Oscar Freire com Consolação é um grande cubo revestido por pastilhas quadradas de aço inox.
O arquiteto me pediu um jardim vertical na parede toda do fundo da loja e eu sugeri a criação de um jardim estruturado, bem arquitetônico e os cubos não me saiam mais da cabeça.


O grande desafio desse jardim foi deixar tudo o mais leve possível, sem perder a força visual. Eu queria uma linguagem brutalista e a solução foi transformar a primeira idéia de cubos de concreto (pesadíssimos!) por cubos de fibra de vidro. Para deixar a fibra de vidro muito resistente, toda a parte de trás dos cubos que foram parafusadas na grade de ferro tem um "sanduiche" de placa de aço que eu pedi pra cortar e dobrar na medida exata. Desenhei uma grade de ferro de 5/8, especificação maior do que a necessária para sustentar o peso e pedi para enferrujar antes de soldar a grade e pedi para chapiscarem a parede de trás para a luz ficar irregular. O substrato foi desenvolvido para ficar com uma densidade baixa e com isso pesar o menos possível. E para manter a aparência de concreto, muitos testes na cor da tinta automotiva da pintura dos cubos.
Outro desafio era irrigar isso tudo sem molhar nada mais que as plantas e sem aparecer os tubos que levariam a água pelos 36 cubos.




As plantas foram cuidadosamente escolhidas: na parte de cima perto do vidro da clarabóia onde o sol é muito forte, pândanus racemosus e aspargos rabo de gato estão dando conta do sol e ficam interessantes com as outras plantas, que tem uma configuração bem "aquática": costela de adão, samambaias, mini guaimbês, pacovás, ripsalis macarrão e jibóias que foram estratégicamente espalhadas por toda a parede e que com o tempo vão enrolar na grade e deixando tudo mais verde.



Mais um jardim e mais uma vez eu chego a conclusão da importância de boas parcerias em tudo na vida!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Subindo Pelas Paredes na VIVER BEM

Lembra do post "Subindo Pelas Paredes"? Foi publicado na revista "Viver Bem" nessa edição de janeiro.
Compartilho com vocês, sempre um prazer receber um convite de alguma revista!

Adorei o comentário: sacada anti-design se referindo a minha mesinha de caixa de tomates. Só quero deixar bem claro que adoro desing! Sou é completamente a favor da liberdade de arregaçar as mangas e por a mão na massa, nesse caso reaproveitando essa caixa bunitinha de tomates que a gente vê jogada pelos lixos da cidade, gastando quase nada para fazer uma mesinha super útil.

Feliz 2011 a todos!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Jardim Botânico De São Paulo

São Paulo é uma cidade impressionante! Moro aqui faz 20 anos e já tinha ouvido falar do Simba Safari, Zoológico (particularmente eu detesto zoológicos) e também já tinham me falado do Jardim Botânico. Hoje  eu acordei cedo, passei muito protetor solar, chapéu de palha e peguei o trânsito paulistano de sempre.
A surpresa que eu tive ao entrar no Jardim Botânico foi digna da dimensão de São Paulo!


Nosso Jardim Botânico é a 3° maior mancha de Mata Atlântica preservada que ainda temos, e é cuidada com um capricho de emocionar. Aliás, durante todo o passeio a emoção anda ao lado, de braços dados. Entrar alí é dar de cara com a ambiguidade: o asfalto vira um riacho e a selva de pedra se transforma numa mata verde, viva, rica. O ar muda radicalmente, o cheiro fica verde e a gente entra num mundo que parece artificial.




Dois meses atrás eu fui almoçar naquele outro pedaço de Mata Atlântica em Ibiúna (lembra do post Almoço Na Mata?) e desde então meu olhar para o paisagismo mudou radicalmente e comecei a estudar mais a fundo nossa mata e descobri coisas lindas e ao mesmo tempo tristes. Temos hoje em dia apenas 7% da mata que tínhamos quando nossos descobridores chegaram aqui. Ela virou açúcar no nordeste, café no sudeste, pastos por todos os lados, móveis, cadeiras e muito dinheiro. Mesmo assim, nesses apenas 7%, temos quase o dobro de todas as espécies que existem nos EUA inteiro, isso sem contar a Amazônia,
cerrados, rupestres e por aí vai.
Mas voltemos ao passeio, uma mistura de arquitetura linda e mata magnífica!







O museu é lindo e muito completo. Uma mistura de Art Deco com Art Nouveau


O que me deixou bem feliz também, foi a diversidade de tribos que andavam por ali. Muita gente fazendo pequinique, nenhum lixo pelo chão e todo mundo feliz. Acho que é esse o mundo que todos queremos, muito verde dentro da realidade urbana. Somos bichos. Urbanos, mas bichos em primeiro lugar.
Como a tecnologia, a arquitetura, os materiais e as formas mais "modernas" ficam muito mais interessantes com o verde!






Saindo do viveiro das espécies nativas voltamos ao caminho de orquídeas, bromélias, filodendros, esculturas e um lago forrado de ninféias. Isso tudo sempre no meio da mata. Uma imensa moldura verde viva!








E então finalmente entramos na mata, em direção à nascente do rio Ipiranga. Aí é emoção pura, vi lagartos gigantes com o rabo colorido de anéis pretos e amarelos, macacos, pássaros e uma infinidade de plantas, com texturas e tantos tons de verdes.
Parece que a mata dança.









Fui achando que ia encontrar umas salas de museu com fotos, folhas secas e claro, isso tudo num lugar gostoso, como um dos parques lindos que nós temos na cidade. O que já seria gostoso.
Fui completamente surpreendido.
São Paulo é uma cidade realmente superlativa em tudo!